Se repararmos agora nos pés da nossa protagonista, veremos que o direito se esconde atrás do esquerdo, enquanto repousa o queixo à mão. É que ela esperava e achava graça, e das graças que guarda esperar, a maior bem seja a sensação de que não vem. O que está hoje lhe é tão essencial que é como se nunca fosse embora e ali sempre estivesse estado. Por mais que ache que não vem, virá. E o que está, vai embora. E ainda que queira que perdure, à protagonista não cabe produzir as vontades alheias de ir e ficar. Nos pensamentos acima do queixo acima da mão acima do cotovelo que se sustenta na mesa em que tudo acontece, ela sabe dizer de algum destino incontrolável. Espera e teme a grande troca, enquanto inventa um jeito de fazer algumas coisas ficarem. Ainda que outras precisem nunca vir.
I'm not quite sure what I'm supposed to do. Do do do... do do do oh oh.
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13.8.09
1.8.09
Cravo e Garoa
As ruas de São Paulo têm cheiro de Gudan. Por aqui, se anda em linha reta, com o vento frio cortando o corpo quente, cruzando o passo com pessoas que só se olham pra pedir fogo, pedir fumo. A cidade toda parece fumar, e os prédios são cinzas de todos os tons, todas as variações de frio. São Paulo é úmida, as paredes e janelas parecem chorar pela falta de cor, pelo sufoco desesperado dessas pessoas presas dentro de si, fascinantes desconhecidos que me fazem temer perguntar as horas.
A cidade não é minha, mas eu não me sinto intrusa ou turista. As ruas parecem aceitar que eu seja de fora, porque aqui em São Paulo todo mundo é de fora. É de fora do outro, é de fora de qualquer tipo de padrão que possa existir. As pessoas só são. São nada. E eu continuo pegando meu metrô, calada, quase cinza, encapotada, quente e fria, cansada, vazia e realizada.
O vento quente de São Paulo é o do corredor do metrô. Quando o trem passa e move a massa de ar que levantava minhas saias em 2004 e bagunça meus cabelos até hoje. Um caso de 5 anos, uma história mal resolvida, e falta lugar porque lugar me sobra.
E eu, camuflada de paulistana, calada, quase cinza, vivendo meus caminhos. Não se olha pro lado, não se fecham os olhos. O cheiro forte invade qualquer pensamento sobre a desproporção dos prédios e das faixas da avenida, os carros são formiga e nós não somos nada. As pessoas são nada às seis da tarde. São volume, são barulhos, são movimento e só. Mais pessoas que cheiram a cravo e emanam algum calor e fumaça no meio do gelo e do silêncio que haveria se elas não houvesse. Mas há.
As ruas de São Paulo têm cheiro de Gudan.
A cidade não é minha, mas eu não me sinto intrusa ou turista. As ruas parecem aceitar que eu seja de fora, porque aqui em São Paulo todo mundo é de fora. É de fora do outro, é de fora de qualquer tipo de padrão que possa existir. As pessoas só são. São nada. E eu continuo pegando meu metrô, calada, quase cinza, encapotada, quente e fria, cansada, vazia e realizada.
O vento quente de São Paulo é o do corredor do metrô. Quando o trem passa e move a massa de ar que levantava minhas saias em 2004 e bagunça meus cabelos até hoje. Um caso de 5 anos, uma história mal resolvida, e falta lugar porque lugar me sobra.
E eu, camuflada de paulistana, calada, quase cinza, vivendo meus caminhos. Não se olha pro lado, não se fecham os olhos. O cheiro forte invade qualquer pensamento sobre a desproporção dos prédios e das faixas da avenida, os carros são formiga e nós não somos nada. As pessoas são nada às seis da tarde. São volume, são barulhos, são movimento e só. Mais pessoas que cheiram a cravo e emanam algum calor e fumaça no meio do gelo e do silêncio que haveria se elas não houvesse. Mas há.
As ruas de São Paulo têm cheiro de Gudan.
12.7.09
Quer dizer,
Mas é claro, tão logo o pretérito perfeito entra em cena, lá me vem o pretérito do subjuntivo fazendo barulho e me lembrando de que é bem no suspiro do "e se" que eu vejo que não há o que suspirar, quer dizer, não em primeira pessoa. E é lá verdade que ando monótona e amarga, mas quem poderia me culpar por reivindicar meu luto? Ainda mais quando a morte é desfecho de doença terminal, ou até mais que isso, e eu até diria eutanásia, porque não sou só eu que vejo a incoerência dos pró-vida desejando que os pró-morte morram, quer dizer, não pró-morte, que ninguém é, mas os realistas ou pé no chão ou apenas os pessismistas e que diriam "Eu já sabia, Galvão", e é claro que alguém sempre sabe, a não ser que a morte seja causa de uma doença misteriosa ou que se considere o doente uma espécie de corpo fechado ou pessoa que tudo aguente.
Mas nem existe gente assim, quer dizer, todo mundo morre um dia, toda doença pode afetar todo mundo e os pró-vida vão perder a luta no final, ainda que tudo isso seja uma metáfora para pessoas que se enganam o tempo todo e não acreditam que seriam capazes de fazer isso ou aquilo, e nós, realistas, pessimistas e afins sabemos que não é lá muito verdade, e que não importa a intenção ou o esforço se no final você, bem, morre. Ou faz uma merda muito grande, quer dizer, mata. Kant estava errado, não tem essa de moralidade na intenção, mas ele tava certo lá nos meios dos imperativos categóricos, quer dizer, queria eu ver se alguém fosse assim, ligar os aparelhos, pagar o tratamento médico pra depois sufocar no travesseiro. Não sei porque sufocar no travesseiro me parece uma morte tão trágica, quer dizer, toda morte é trágica em sua medida de tragicidade, já que criança morrendo é bem pior do que qualquer outra coisa, mas o que eu dizia era que sufocar só não deve ser pior do que afogar.
E a gente sufoca em palavra e afoga em mentiras o tempo todo e as pessoas acham que pelo menos não levaram tiros, quer dizer, alguma coisa tá errada, e nós, pessimistas, realistas e afins sabemos que É CLARO que alguma coisa está errada, muita coisa está errada, mas é como se a vida fosse um grande hospital tipo em Grey's Anatomy e no último episódio da 5ª temporada as pessoas insistissem em assinar grandes documentos de não-ressucitar (NRs) e se metessem com doenças irreversíveis e quadros clínicos tão absurdos que nem o mais bem-intencionado dos pró-vidas poderia desejar que a gente consertasse.
E eu nem sou médica, meu deus.
7.7.09
A um ilustre futuro
É a segunda porrada que eu dou nesse despertador, 12 minutos atrasada e eu levanto pra lavar o rosto. É engraçado como a gente acorda devagar, primeiro as pernas, depois os olhos pra tentar não bater a cara nas coisas e depois a torneira. Merda de cabeleireiro, eles nunca acertam mesmo. Todos os banheiros têm espelho, mas nem deveriam. Deprime de manhã. Hoje é um dia estranho, sei lá. Cara de quarta, mas já é sábado. Eu gosto de quartas. Todo dia é o mesmo café da manhã, mas eu nem percebo e nem enjôo, eu acordo depois de comer. Seis e quinze, saco. Não vai dar tempo de inventar moda hoje. Roupa, calçados, dentes, mochila, mãe beijo, escadas e cacete, eu sempre esqueço o celular. Depois do trevo eu peço, pai, me dá dinheiro, e ele pergunta, cadê o dinheiro da semana passada?, gastei, lógico. No sinal ele me dá, e eu chego a tempo de pegar o lugar de sempre. Aula é sempre a mesma coisa. Os professores falam, eu anoto, algum me chama pelo apelido, kakau, eu gosto. Vai ter churrasco esses dias, quero ir. Acho que vai ser um saco, não gosto muito de gente da minha idade quando estão no coletivo. Pessoa é melhor no singular. Sempre vai professor, aí é bom. Ficar não é comigo, gosto de companhia, singular. Amor é um troço estranho, a gente chora e ri quando ama. Juntar uma coisa ruim, chorar, com uma coisa boa, rir, e dar amor que é uma coisa ótima. Nunca vi. Deve ser normal, o amor. Nem rir nem chorar, alguma coisa no meio. Amor amor amor. Quatro letras, todo mundo sempre lê mais do que isso. Amar demais. E mede como? Amôrmetro, arrã. Falei isso esses dias não sei com quem. Amor é um troço que se sente, e só. Olhando pras estrelas, pro cachorro, pro namorado, pro exercício de matemática. Se fechar os olhos também dá. Quem beija de olho aberto não gosta de verdade, ele diz. Gostômetro. Eu já amei. Dois ou três, não sei, não medi. Loiro, careca, cabeludo. 1,80 pra cima, eu sou baixinha. Dá pra amar muito, e não ser correspondida. Vai ver é, quantos metros você ama?, eu perguntaria. 1,58. Três mil quilômetros, quinhentos e noventa e depois não passei dos cinqüenta. Deve medir em centímetro então, quanto mais perto, mais amor. Nem é. Bom mesmo é quem conversa com a gente, você gosta de arcade fire?, ele pergunta. Comento do cenário geopolítico mundial, ele abraça, beija, ama, conversa mais. Deve ser como ter um diário pensante, companhia, singular. Igual não, é monótono. Conversa precisa de plural, diferença e ouvidos. Ouvir e falar. Singular com singular dá plural, aí é bom. Gente burra não dá, como assim efeito estufa?, ele pergunta, eu explico. Pretensão, pior. Eu já sabia, ele diz, arrã, eu digo. Alma gêmea nem deve existir, 6 bilhões de pessoas. Se a minha for um chinês eu tou fodida, vários milhares de quilômetros. Um dia acho alguém pra compartilhar meu singular, criar um plural a uns centímetros ouvindo beautiful people com o amôrmetro ao meu favor, eu digo. Você terá um ilustre futuro, ele diz. E sorri.
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Texto escrito dia 09/03/07. E porra nenhuma mudou.
9.6.09
Kafka não tocava guitarra, parte II
E eu me esqueci de dizer que te encontrei na rua há uns meses! Era uma feira ao ar livre, e você estava lá com sua voz, me reconhecendo de um passado não tão distante e perguntando se eu tinha acabado de ler aquele livro. Eu acho que ri, há um ano, pelo menos! Dessa vez Platão não estava por perto. De certo que bebia cervejas e dançava, sem se importar. Acho que achei bonitinho você se lembrar do livro que eu lia, eu que mal e mal me lembrava de você.
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20.5.09
Sonhos
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5.5.09
Guerra
De um lado, erguiam suas armas e esperavam. Do outro, gritavam e preparavam a investida a qualquer momento. O suor, o batimento acelerado, o conflito e a tensão estavam sólidos. A guerra começou. Iam uns de um lado, continham-nos os do outro. O equilíbrio gerava a espera, que gerava ação e que se desequilibrava em segundos. Ia-se de um lado, continha-se do outro, alternando forças e vencedores. Findou-se a guerra, no que o rapaz largou o telefone: não ligou. De qualquer modo, vencera a solidão.
29.4.09
Laranja
Bebia seu suco medindo o tempo da espera, com pouca paciência e muito método. A mesinha na calçada, a plaqueta do café. Ácido seria o momento quando ele chegasse, e ela lhe diria: "eu não o amo mais, adeus". O fim de tarde coloria seu vestido, contrastando com a sombra que pairava sobre si. Quando o homem da esquina acelerou o passo a seu encontro, o coração acompanhou. O copo e a coragem chegavam agora à metade. Quando doce ele sorriu, ela hesitou. No último gole, o gosto da laranja era amor.
s2 Ainda do Doppel
28.4.09
Sete
Depois da 7ª, nada mais importava. Em pensamento, fazia chover distâncias entre o que vivera e o que desejara. Quem antes fora? As lembranças faziam ferver a vontade de a ver mais uma vez. Dissera o que não devia, fizera o que não queria. Agora, que arcasse com as conseqüências. Imbecil! A chance se foi, o fato se fez: ela não o ama. Não o ama! Em cada segundo que seguisse em sua existência fácil, far-se-ia saber: sete vidas levaram para que houvesse, de fato, um fim. Enforcou-se em setembro. Trovejava.
Do melhor projeto de escrita que eu já participei. Eu e o Bruno escolhíamos temas (geralmente uma palavra sem significado absoluto), desenvolvíamos em 500 caracteres e trocávamos. O Doppel Projekt durou umas duas dezenas de pares de textos. Deixou saudades. Em mim, pelo menos.
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